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A SUBSTITUIÇÃO

 

Foi chamado de última hora para substituir um professor de matemática no 7° ano A do Ensino Fundamental. Mas sou formado em Língua Portuguesa, pensou. Cogitou argumentar. Deixa pra lá! Estava precisando de dinheiro, não poderia negar.

 

Ultimamente não estava aparecendo aula. Preocupado, recém formado, questionava se conseguiria sobreviver como professor. Tinha muitas ideias, esperançava muitas conquistas. E, principalmente, ajudar aqueles alunos que mais precisavam. Esse era o lema. Citava e recitava junto com seu amigo de faculdade.

 

O jeito era ir sem jeito. Arrumou o que tinha, alguns textos, a pasta de exercícios e a vontade. Há ainda quem acredita que basta vontade. Mas a vontade não seria tão decisiva. Professor, ainda bem que chegou. Foi de última hora, eu sei. Mas precisávamos de alguém urgente. Aquela sala, só por Deus.

 

Ficou na cabeça do professor, ressoando como chiclete, "Só por Deus", quando entrou e viu ali um número pequeno de crianças em pé. Se conseguiu contar, foram 15. Difícil quando o objeto da conta não fica no mesmo lugar por um segundo. Bem, pensou, é colocar todo mundo no lugar. Gestão de sala. Sentem todos, abram o caderno, o professor chegou. Deve ter falado muito baixo, calculou, pois ninguém sentou. Toda pequena turba estava pipocando em cada espaço útil da sala. Correndo atrás do opositor, jogando pedaço de lápis preto, escondendo em uma guarita armada de bolsa e caderno, pendurado no janelão da sala que dá para a rua, sentado no lixo ou escondido no armário de livros dos alunos.

 

Pigarreou e aprumou a garganta, sentiu que precisava ter vibração na voz. Pediu mais alto, mas com educação. "Cada um no seu lugar, poooor favor". Um breve paralisar de tempo aconteceu, minuto em que a molecada percebeu que ali estava um adulto e que elas não estavam mais sozinhas. O professor olhou para trás e percebeu que ele era o único adulto. A inspetora já havia se evadido dali sem ele perceber.

 

O tempo de apreciação durou pouco. Todos voltaram a fazer o que estavam programados para fazer: correr um atrás do outro em um espaço pequeno com obstáculos colocados de propósito para evitar a livre circulação.

Ele olhou para o relógio e constatou que teria mais 25 minutos para ficar dentro do campo de guerra e a dúvida agora era dar aula, proteger alguém ou se proteger. Esqueceu de vez o pudor e o conteúdo a ser ministrado. Tirou dos seus pés uma menina loura que deitou para não ser alvejada por um míssil de folha amassada. Colocou-a em uma cadeira. Mas esse não é o meu lugar. Birrou! E qual é o seu... Não deu tempo, ela já se evadira do local sem o professor conseguir anotar a chapa.

 

Foi até o armário e lá questionou por que duas crianças estavam escondidas ali atrás. O garoto com o cabelo em desalinho saiu primeiro tentando esconder a boca vermelha. Em seguida uma menina com olhares ferozes que devoraram a alma do educador. Ficou com medo. Foi até a janela e tirou quatro garotos, sentados no parapeito, que cuspiam e xingavam quem passava pela rua: Eu vi sua mãe na esquina. Seu pai é gostoso.

 

Ele estava a beira de perder seu réu primário, ou no mínimo fazer o que prometeu a Deus e a Santinha que nunca faria: Gritar e xingar. Xingou. Mas xingou tão alto que no pátio se ouviu o berro do professor. Os olhos ardentes e ansiosos, antes dispersos, agora dirigiam todos para um ponto fixo: um homem suado, molhado, pingando e babando de raiva. Seus dentes para fora ameaçavam devorar a primeira criança que se mexesse. Como uma brincadeira de vivo ou morto, quem respirasse teria a cabeça devorada por aquela espécie desconhecida dentro da sala.

 

Ele não parou de berrar. Em um pequeno segundo a consciência lhe disse que já havia chamado a atenção de todos, que poderia parar de xingar. Mas berrar e xingar lhe davam um status de poder e um prazer antes nunca experimentado. As crianças foram perdendo o topor e andando devagarinho, cada um para a sua mesa, sob os gritos e berros e xingamentos e babação de uma feroz criatura fincada no meio da sala.

 

Quando todos em silêncio se posicionaram e o professor percebeu que agora tinha o controle da sala de aula - a tal da gestão -, ficou feliz e satisfeito. Pegou sua bolsa que caíra no chão, a caneta da lousa e, quando levantou-a para escrever seu nome no quadro branco...

 

Bateu o sinal e toda trupe saiu correndo feliz: hora do almoço.

 

Valdir Lopes.

Dir Lopes
Enviado por Dir Lopes em 23/10/2025
Alterado em 23/10/2025
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