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Porque escrever é ato de libertação
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Eva (comovente interpretação de Tilda Swinton), em sua vida comum ao lado de Franklin (John C. Reilly), é impactada pela chegada de Kevin (Ezra Miller). Como acontece com muitas mães, a chegada do primeiro filho traz ansiedade, medo e também a felicidade diante da presença de um novo ser. Mas Kevin se mostra algo além disso: uma figura enigmática, sombria e observadora. Eva — mulher, esposa e mãe — entra involuntariamente em uma vida de angústia e silêncio ao lidar com a perspectiva que constrói sobre seu rebento.

 

Chego a ouvir os pensamentos dela quando a vejo olhar, incrédula e, às vezes, exasperada, para o primogênito: o que há de errado ali? Ele realmente é meu?

 

Com o passar do tempo, Eva fortalece sua percepção sobre o próprio filho e pede, silenciosamente, por ajuda. No entanto, encontra-se terrivelmente sozinha, presa em um thriller de terror psicológico, banhado pela incerteza da maternidade e pelo peso da responsabilidade. O filme não oferece respostas fáceis sobre Kevin, personagem brilhantemente trazido à luz pelo norte-americano Ezra Miller. O longa, ao contrário, faz-nos acompanhar as dúvidas de Eva e também questionar até que ponto uma mãe pode ser responsabilizada pelas escolhas de um filho.

 

Em toda a narrativa, parece sempre existir um nó a mais para azedar o caldo. A presença de Célia intensifica ainda mais o medo. Os olhares subentendidos de Kevin prenunciam tragédia, mas o afeto materno tenta consertar, se possível, essa realidade, como se fosse obrigação estritamente sua. Entre a culpa, a inércia, a solidão e o ódio, Eva é uma mulher cercada por sentimentos contraditórios, tentando permanecer forte enquanto enfrenta tudo praticamente sozinha. São intensas as trocas de olhares e os diálogos monossilábicos entre mãe e filho. Angustiante esperar, a cada quadro, a troca de comportamento de Kevin, quando fala com o pai e quando tortura a própria mãe.

 

É isso que a nossa sociedade muitas vezes propõe a tantas mães e mulheres: serem fortes sozinhas. Eva parece não desmoronar. Ela continua se levantando do lugar em que foi deixada e, de maneira quase ordinária, remove as manchas que teimam em se acumular sobre sua vida.

 

Precisamos Falar Sobre o Kevin é um daqueles filmes que nos levam a pensar sobre a própria condição humana. Mas, antes de falar sobre Kevin, precisamos muito falar sobre Eva. Porque, antes de pensar em quem é Kevin e por que fez o que fez, talvez devêssemos nos colocar diante de uma mulher tentando reconstruir a própria existência enquanto essa existência se esfarela diante de si.

 

Dirigido por Lynne Ramsay e lançado em 2011, o filme é uma adaptação do romance homônimo da escritora norte-americana Lionel Shriver. Tilda Swinton interpreta maravilhosamente bem, criando cor e intensidade à personagem, mãe de Kevin. Vale a pena conferir. Classificação etária: 16 anos.

Dir Lopes
Enviado por Dir Lopes em 19/09/2026
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